Dicas da Psicóloga para Proteger a Saúde Emocional das Crianças na Internet

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Duas crianças deitadas lado a lado em uma superfície escura, usando roupas brancas. Cada uma segura um tablet e está concentrada na tela. A iluminação vem dos próprios dispositivos, iluminando suavemente seus rostos.

Cada vez mais cedo, crianças têm acesso ao universo digital — seja pelo celular que acalma no carrinho de bebê, seja pelo tablet usado para assistir vídeos no almoço de família. Mas até que ponto essa imersão precoce é saudável? Quais são os impactos emocionais de crescer conectado, exposto a padrões irreais e a relações virtuais nem sempre seguras?

Para responder essas perguntas, conversamos com a psicóloga Terezinha Dutra (@psi_tereza), especialista em desenvolvimento infantil e comportamento, que há anos orienta pais e educadores sobre os desafios de educar crianças na era digital.

Sua atuação, tanto no consultório quanto nas redes sociais, é marcada por uma linguagem clara, acessível e embasada em evidências científicas, ajudando famílias a compreenderem não apenas o que está acontecendo com seus filhos, mas por que está acontecendo.

Nesta entrevista, Terezinha aborda desde a idade adequada para entrar nas redes sociais, passando pelos impactos da comparação social online na autoestima infantil, até os riscos emocionais do contato com desconhecidos e conteúdos inadequados.

Com base em recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da legislação brasileira, ela alerta sobre a urgência de supervisão ativa e de um diálogo aberto entre pais e filhos.

Mais do que números de curtidas ou seguidores, está em jogo a formação emocional de uma geração. O ambiente virtual pode ser uma ferramenta de aprendizado e conexão — mas, sem cuidado, também pode se transformar em uma armadilha perigosa.

Desenvolvimento e Primeiros Contatos com a Internet

Do ponto de vista da psicologia infantil, qual é a idade mais apropriada para que uma criança comece a ter contato com redes sociais?

Quando falamos em redes sociais e seus padrões de sociabilidade, precisamos pensar primeiro no conceito de tempo de tela e analisar na raiz os benefícios e malefícios do ambiente virtual.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) têm recomendações claras: crianças de até 2 anos não devem ter contato com telas, e dos 2 aos 5 anos, no máximo uma hora por dia, sempre com supervisão. Infelizmente, vemos bebês usando celulares no carrinho, o que vai na contramão dessas orientações.

Em relação às redes sociais, a legislação brasileira, por meio do Guia sobre o Uso de Dispositivos Digitais estipula a idade mínima de 13 anos para criar perfis em algumas plataformas. Mesmo assim, é indispensável o acompanhamento ativo de pais e responsáveis.

Quais são os impactos mais comuns do uso precoce de redes sociais no desenvolvimento emocional das crianças?

Vale ressaltar alguns dos impactos mais comuns, são eles:

  • alterações na qualidade do sono;
  • desregulação emocional e humor instável;
  • pouco interesse por atividades fora do ambiente virtual;
  • quadros ansiosos;
  • mudanças de comportamento que podem levar ao isolamento social e até ao desenvolvimento de transtornos depressivos.
Capa do guia do Governo Federal intitulado ‘Crianças, Adolescentes e Telas – Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais’. A imagem mostra ilustrações diversas de crianças, adolescentes e adultos usando computadores, celulares e tablets, representando diferentes perfis e situações. Na parte inferior está a logomarca do Governo Federal com o slogan ‘União e Reconstrução’.
Crianças, Adolescentes e Telas – Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais. (Governo Federal do Brasil, 2025)

Redes Sociais e Saúde Mental Infantil

Como o uso de plataformas como TikTok, Instagram e YouTube pode influenciar a autoestima e a identidade em formação?

 

As exigências irreais do mundo digital podem gerar distorções na autopercepção da criança. Quando sua identidade se forma baseada apenas na aprovação externa, cria-se uma constituição de fora para dentro, enfraquecendo a percepção real de quem ela é.

É essencial que pais e educadores fiquem atentos a sinais como autoestima baixa ou inflada, distorção de imagem corporal, atitudes excludentes e erotização precoce.

A comparação social nas redes pode afetar o bem-estar psicológico das crianças? Como identificar esses efeitos?

A comparação social online compromete o bem-estar psicológico:

  • descendente: quando a criança ou adolescente tenta proteger sua autoestima comparando-se a quem considera “inferior”, reforçando estereótipos negativos;

  • ascendente: quando a idealização do outro a coloca em posição de inferioridade.

Nos dois casos, há prejuízos emocionais significativos, que podem levar a insegurança, ansiedade e dependência constante de aprovação.

De que maneira a exposição constante a conteúdos adultos ou violentos afeta o processamento emocional infantil?

Consequências de conteúdos inadequados ou violentos:

  • assédios virtuais;

  • agressões verbais;

  • lacunas emocionais profundas;

  • prejuízo nos vínculos afetivos;

  • perda do interesse pela vida em casos extremos.

Relações Virtuais e Riscos Psicológicos

Como o contato com desconhecidos ou a busca por validação digital pode impactar a segurança emocional das crianças?

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante a integridade e segurança dos menores, e isso inclui o ambiente virtual. O contato com desconhecidos pode abrir portas para abusadores.

O acesso a conteúdos impróprios exige supervisão rigorosa — predadores sabem como atrair crianças e manipulá-las sem que elas saiam do ambiente familiar, supostamente seguro.

Orientação final da especialista

Terezinha Dutra reforça que tecnologia não é vilã — mas o uso sem supervisão, sim. O ambiente digital pode contribuir para o aprendizado, mas não substitui o brincar, o contato com a natureza, a convivência familiar e o desenvolvimento das habilidades sociais no mundo real.

O equilíbrio e a presença ativa dos pais são as chaves para garantir que a internet seja uma ferramenta de crescimento e não uma ameaça silenciosa.

Confira a segunda parte desta entrevista, com dicas práticas para pais e cuidadores no site.

Mulher morena de cabelos médios lisos e blusa branca em um fundo branco.

Psicólogo(a)

Terezinha Dutra Lima

Psicóloga clínica Especialista em saúde mental pela Fiocruz, Especialista em neuropsicologia e em psicodiagnóstico infantil e psicopatologia. Autora e coordenadora do Projeto AbraceTea. @espacoabracetea

Mulher e criança negras sorrindo para uma selfie, ambas com cabelos trançados, sentadas lado a lado.

Escrito por

Gabriela Sucupira

Redatora bilíngue de língua inglesa, Especialista em Marketing pela USP/Esalq e bacharel em Letras pela UFRJ. Carioca, mãe da Rebeca,Consultora Textual e de Personal Branding para o Linkedin.

Artigo escrito por

Gabriela Sucupira

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