Ser ator e pai: a paternidade além dos papéis

COMPARTILHE

Homem aparece sorridente com os três filhos em praia.

Entre compromissos, responsabilidades e os imprevistos do dia a dia, nem sempre é fácil para um ator e pai encontrar esse equilíbrio. E, mesmo quando está por perto, estar verdadeiramente disponível para as crianças exige mais do que só presença física.

Para José Carlos Pereira, médico, ator e pai de três filhos, essa é uma das grandes reflexões que acompanham a paternidade. Com uma trajetória profissional que transita por diferentes áreas, ele aprendeu com os filhos que nenhuma experiência anterior prepara completamente alguém para o papel de pai.

Em entrevista à MyBabyCare, José fala sobre as transformações que a chegada dos filhos trouxe à sua vida, a importância de participar ativamente da criação dos filhos e os desafios de conciliar carreira e família.

Homem posa sorridente ao lado dos três filhos em um momento de descontração ao ar livre, durante o pôr do sol.
José Carlos Pereira aproveita um momento especial ao lado dos três filhos

Ator e pai: uma conversa sobre paternidade, presença e os desafios de criar os filhos

“Ser pai mudou a sua forma de olhar para a vida. O que é que a paternidade lhe ensinou sobre si próprio que nenhuma outra experiência profissional ou pessoal lhe tinha ensinado?”

A paternidade ensinou-me uma coisa extraordinária: que podemos passar uma vida inteira a achar que sabemos alguma coisa sobre o mundo e, de repente, aparece uma criatura com três quilos que nos demonstra, em poucos segundos, que afinal não sabemos rigorosamente nada! (risos)

Fui ator antes de ser médico, vivi muitas experiências, interpretei muitos personagens, estudei durante anos e continuo estudando. Mas nenhuma formação, nenhum congresso internacional e nenhuma experiência profissional me preparou verdadeiramente para ser pai.

Os meus três filhos ensinaram-me sobretudo a relativizar. Aquilo que antes parecia urgente deixou muitas vezes de ser. Aprendi que o amor não se mede pelo que conseguimos oferecer, mas pela capacidade de nos entregarmos, mesmo quando estamos cansados, preocupados ou quando o dia não corre como esperávamos.

E ensinaram-me também a reconhecer as minhas fragilidades. Porque ser pai não nos torna automaticamente melhores pessoas. Dá-nos, isso sim, uma razão extraordinariamente forte para tentarmos sê-lo todos os dias.

Hoje tenho uma certeza: posso ter desempenhado muitos papéis ao longo da minha vida, mas o de pai é o único que não quero representar. Quero vivê-lo, com toda a autenticidade, imperfeição e amor que isso implica.

“Entre a medicina, a representação e os compromissos profissionais, como procura garantir que os seus filhos sentem não apenas a sua presença física, mas também a sua disponibilidade emocional?”

Começo por reconhecer que nem sempre é fácil. E acho importante dizê-lo, porque existe uma tendência para romantizarmos a conciliação entre a vida profissional e a familiar.

A minha vida tem horários pouco convencionais. Entre consultas, gravações, viagens, congressos e formação contínua, há dias em que a agenda parece ter sido organizada por alguém que claramente não gosta de mim! (risos)

Mas aprendi a distinguir duas coisas fundamentais: estar com os meus filhos e estar verdadeiramente disponível para eles.

A presença física é importante, naturalmente, mas a disponibilidade emocional exige mais. Exige escutar, observar, perceber quando precisam de conversar, de brincar, de um abraço ou simplesmente de estar ao nosso lado.

Quando estou com eles, procuro que sintam que aquele tempo lhes pertence. Nem sempre consigo desligar-me de tudo tão depressa quanto gostaria, mas faço esse esforço conscientemente.

E há uma coisa que considero inegociável: os filhos não devem sentir que estão a competir com a profissão dos pais pela sua atenção.

Não quero que os meus filhos cresçam a pensar que o pai tinha sempre coisas mais importantes para fazer. Quero que saibam que, mesmo quando não estou fisicamente presente, continuam a ocupar um lugar absolutamente central na minha vida.

Porque a presença também se constrói na confiança de saber que podemos contar com alguém.

Homem sorridente aparece com seus três filhos em frente a uma árvore de natal.
José Carlos Pereira aproveitando natal com seus filhos.

“Enquanto médico e pai, sente que o conhecimento médico ajuda a viver a paternidade com maior tranquilidade ou, pelo contrário, faz com que esteja ainda mais atento e preocupado com a saúde e o desenvolvimento dos seus filhos?”

Diria que é uma mistura das duas coisas, com alguns episódios de excesso de zelo pelo meio! (risos)

O conhecimento médico dá-nos ferramentas importantes. Permite-nos compreender melhor determinadas fases do desenvolvimento infantil, reconhecer sinais de alerta e distinguir situações que exigem intervenção daquelas que fazem parte do crescimento normal de uma criança.

Mas também tem um inconveniente: conhecemos demasiados diagnósticos diferenciais!

Aquilo que para outros pais é uma simples febre pode, durante alguns segundos, desencadear na nossa cabeça uma revisão mental de várias patologias. Felizmente, depois entra o raciocínio clínico e regressa alguma serenidade.

A medicina ensinou-me, sobretudo, a importância da prevenção, do sono, da alimentação, da atividade física e do desenvolvimento emocional.

Hoje sabemos que os primeiros anos de vida são particularmente importantes para o desenvolvimento cerebral e para a construção das relações de vinculação. Um ambiente seguro, afetuoso e previsível contribui para o desenvolvimento saudável da criança.

Mas também acredito que devemos ter cuidado para não transformar a infância num conjunto de indicadores clínicos. As crianças precisam de brincar, explorar, cair, levantar-se, sujar-se e descobrir o mundo.

Enquanto médico, quero protegê-los. Enquanto pai, tenho de aprender a deixá-los crescer. E talvez seja precisamente aí que reside o maior desafio.

“Hoje fala-se cada vez mais de paternidade ativa e da importância de o pai participar verdadeiramente nos cuidados e na rotina dos filhos. O que significa, para si, ser um pai presente?”

Para mim, ser ator e pai presente significa assumir a paternidade como uma responsabilidade integral e não como uma participação ocasional.

Nunca gostei particularmente da expressão “ajudar a mãe”. Um pai não ajuda a mãe a cuidar dos filhos. Um pai cuida dos seus filhos. É uma diferença aparentemente pequena na linguagem, mas enorme na forma como entendemos a paternidade.

Ser pai é participar nas rotinas, conhecer os hábitos, perceber os medos, acompanhar as conquistas e estar disponível também nos momentos menos fotogênicos da vida familiar.

Porque brincar com os filhos é maravilhoso, mas educar também implica estabelecer limites, lidar com birras, noites mal dormidas, preocupações e decisões difíceis.

E tudo isso faz parte do amor.

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, sabemos que relações de vinculação seguras se constroem através de interações consistentes, sensíveis e responsivas. Não é necessário sermos pais perfeitos, mas é fundamental sermos figuras emocionalmente disponíveis e previsíveis.

Acredito muito numa paternidade que combina afeto com responsabilidade, ternura com limites e liberdade com segurança.

E há algo que considero bem importante: os nossos filhos devem sentir que podem procurar-nos não apenas quando fizeram alguma coisa bem, mas sobretudo quando alguma coisa correu mal.

Porque o verdadeiro significado de estar presente não é controlar todos os passos dos nossos filhos. É garantir que saibam que nunca terão de enfrentar o mundo sozinhos.

Homem sorridente e de camisa branca aparece ao lado de seus dois filhos pequenos, que vestem camiseta laranja. Todos estão felizes.
José Carlos Pereira em um momento de descontração com os filhos.

“Os filhos observam muito mais aquilo que fazemos do que aquilo que lhes dizemos. Sendo uma pessoa com uma vida profissional tão diversificada e pública, que valores gostaria que os seus filhos aprendessem através do seu exemplo?”

Gostaria, acima de tudo, que aprendessem a ser boas pessoas.

Parece uma resposta simples, mas talvez seja das mais exigentes.

A minha vida profissional tem sido pouco convencional. Comecei muito cedo na representação, construí uma carreira pública e, mais tarde, decidi abraçar a medicina, regressar à universidade e enfrentar um percurso acadêmico particularmente exigente.

Continuo a investir na minha formação médica, participando em congressos e programas científicos em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente em Espanha, na Suíça e em Itália.

Mas não gostaria que os meus filhos retirassem deste percurso apenas uma ideia de sucesso profissional.

Gostaria que percebessem que nunca é tarde para aprender, que o conhecimento exige humildade e que a dedicação é muito mais importante do que o reconhecimento.

Quero que aprendam a respeitar todas as pessoas, independentemente da sua profissão, condição social ou circunstâncias de vida. Que saibam pedir desculpa quando erram. Que tenham coragem para defender aquilo em que acreditam, mas também humildade para reconhecer quando não têm razão.

E, sobretudo, que não confundam notoriedade com valor humano.

A vida pública ensinou-me que a imagem que os outros constroem de nós nem sempre corresponde àquilo que verdadeiramente somos. Por isso, quero que os meus filhos compreendam que o caráter se revela principalmente naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.

Se um dia forem pessoas íntegras, sensíveis, curiosas e capazes de amar e respeitar os outros, sentirei que consegui transmitir-lhes aquilo que realmente importa.

Quanto às profissões que escolherem, são absolutamente livres. Embora, se algum deles quiser ser médico e ator ao mesmo tempo, talvez lhe recomende primeiro umas boas férias! (risos)

“A saúde mental e o bem-estar dos pais têm impacto na dinâmica familiar. Na sua perspectiva de médico e de pai, até que ponto considera importante que os pais cuidem de si próprios para conseguirem cuidar melhor dos filhos?”

Considero absolutamente fundamental.

Durante muito tempo, criou-se a ideia de que ser um bom pai ou uma boa mãe implicava uma espécie de anulação pessoal. Como se cuidar de nós próprios fosse um ato de egoísmo.

Hoje sabemos que essa visão é não só injusta como pouco saudável.

A investigação em psicologia do desenvolvimento demonstra que o bem-estar psicológico dos cuidadores influencia a qualidade das interações familiares, a regulação emocional e o ambiente em que as crianças crescem.

Um pai permanentemente exausto, emocionalmente indisponível ou sujeito a níveis elevados de stress pode ter maior dificuldade em responder de forma sensível e equilibrada às necessidades dos filhos.

Isto não significa que tenhamos de estar sempre bem. Significa que devemos reconhecer as nossas necessidades e assumir a responsabilidade de cuidar também da nossa saúde física e mental.

Na minha prática médica, sobretudo nas áreas da medicina preventiva, integrativa e da longevidade, valorizo cada vez mais a relação entre sono, exercício físico, saúde metabólica, equilíbrio emocional e qualidade de vida.

E acredito que esses princípios se aplicam igualmente à paternidade.

Também sou pai, também tenho dias difíceis, também me canso e também cometo erros. Não existe nenhuma especialidade médica que nos torne imunes à condição humana.

Aliás, uma das coisas mais importantes que podemos ensinar aos nossos filhos é precisamente que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Gostaria que crescessem a compreender que cuidar da saúde mental é tão legítimo como cuidar da saúde física. Porque os nossos filhos não precisam de pais invulneráveis. Precisam de pais emocionalmente responsáveis, capazes de reconhecer as suas dificuldades e de procurar soluções.

E talvez um dos maiores exemplos de força que lhes possamos dar seja mostrar-lhes que também nós estamos permanentemente a aprender a viver.

Homem aparece abraçando seus dois filhos. Os três estão sorrindo, alegres.
José Carlos Pereira aproveitando momentos com dois de seus filhos.

“Se pudesse deixar uma mensagem aos pais que sentem que nunca têm tempo suficiente, que estão constantemente a tentar conciliar trabalho, família e vida pessoal, o que lhes diria sobre aquilo que realmente importa na relação com os filhos?”

Os diria que, antes de mais, não confundam a impossibilidade de fazer tudo com a incapacidade de fazer aquilo que realmente importa.

Vivemos numa sociedade que nos exige uma disponibilidade quase permanente. Temos de ser excelentes profissionais, pais exemplares, companheiros atentos, pessoas saudáveis, produtivas e, de preferência, ainda encontrar tempo para ir ao ginásio e publicar uma fotografia dizendo que está tudo maravilhoso! (risos)

Mas a vida real não funciona assim.

Há dias em que falhamos. Há compromissos que se sobrepõem. Há momentos que gostaríamos de ter vivido de outra forma. E acredito que a resposta não está em procurar uma perfeição impossível, mas em fazer escolhas conscientes.

O tempo com os filhos não deve ser medido apenas em horas, embora o tempo e a constância sejam indispensáveis. Deve também ser vivido com atenção, afeto e disponibilidade verdadeira.

Uma conversa antes de dormir, uma brincadeira sem telefones, um abraço inesperado ou a capacidade de escutar uma preocupação aparentemente insignificante podem ter um significado enorme para uma criança.

Não devemos esquecer que aquilo que para nós é um pequeno momento do dia pode representar, para eles, uma memória para toda a vida.

E há uma ideia que me acompanha cada vez mais: os nossos filhos não ficam pequenos à espera de que tenhamos a agenda livre.

O tempo passa. E passa depressa.

Por isso, diria aos pais que trabalhem, que tenham ambições, que procurem realizar-se pessoal e profissionalmente, mas que não adiem indefinidamente aquilo que não se recupera.

No final, acredito que os nossos filhos dificilmente se recordarão de quantas reuniões tivemos, de quantos prêmios recebemos ou de quantas horas trabalhamos.

Mas irão se recordar de como os fizemos sentir.

E se os meus três filhos, um dia, olharem para trás e disserem “o nosso pai nem sempre conseguiu estar em todo o lado, mas nunca tivemos dúvidas de que éramos amados”, então terei alcançado uma das maiores realizações da minha vida.

Porque, depois de tantos anos a interpretar personagens e de tantos outros dedicados a cuidar de pessoas, percebi que o papel mais importante da minha vida não tem guião, não tem ensaios e não admite substitutos.

É simplesmente ser pai. E é, sem dúvida, o privilégio mais bonito que a vida me deu.

A paternidade é construída todos os dias

A experiência do ator e pai José Carlos Pereira nos mostra que a paternidade não precisa ser marcada pela perfeição, mas pelo compromisso de estar presente, aprender e participar verdadeiramente da vida dos filhos.

E, como ele mesmo destaca, são muitas vezes os pequenos momentos, uma conversa, um abraço ou a atenção dedicada a uma preocupação infantil, que permanecem na memória das crianças.

Se você gostou da entrevista, não deixe de conhecer o perfil do ator e pai José Carlos Pereira, e de também acompanhar outros conteúdos sobre paternidade ativa aqui no nosso blog!

Instagram José Carlos Pereira

Logo do mybabycare, passarinho saindo do ninho.

Escrito pela equipe

My Baby Care

O Mybabycare é um portal, um espaço seguro para trocar experiências com pais, futuros pais e especialistas. Aqui, ninguém caminha sozinho.

Artigo escrito por

Lidiele Moura

Respostas para este artigo:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *